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"O homem deve ser amigo da mulher. E no seu amor, deve respeitar sua alma e seu corpo como sagrados que são."
Ghandi.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Texto do livro "O céu e o inferno" de Allan Kardec

ESPÍRITOS SOFREDORES
CLAIRE
(Sociedade de Paris, 1861)
O Espírito que forneceu os ditados seguintes pertenceu a uma senhora que o
médium conhecera quando na Terra. A sua conduta, como o seu caráter, justificam
plenamente os tormentos que lhe sobrevieram. Além do mais, ela era dominada por um
sentimento exagerado de orgulho e egoísmo pessoais, sentimento que se patenteia na
terceira das mensagens, quando pretende que o médium apenas se ocupe com ela. As
comunicações foram obtidas em diferentes épocas, sendo que as três últimas já
denotam sensível progresso nas disposições do Espírito, graças ao cuidado do
médium, que empreendera a sua educação moral.


1. - Eis-me aqui, eu, a desgraçada Claire. Que queres tu que te diga? A
resignação, a esperança não passam de palavras, para os que sabem que, inumeráveis
como as pedras da saraivada, os sofrimentos lhe perdurarão na sucessão interminável
dos séculos. Posso suavizá-los, dizes tu... Que vaga palavra! Onde encontrar coragem
e esperança para tanto? Procura, pois, inteligência obtusa, compreender o que seja um
dia eterno. Um dia, um ano, um século... que sei eu? Se as horas o não dividem, as
estações não variam; eterno e lento como a água que o rochedo roreja, este dia
execrando, maldito, pesa sobre mim como avalancha de chumbo... Eu sofro!... Em
torno de mim, apenas sombras silenciosas e indiferentes... Eu sofro!
Contudo, sei que acima desta miséria reina o Deus Pai, para o qual tudo se
encaminha. Quero pensar nEle, quero implorar-lhe misericórdia. Debato-me e vivo de
rojo como o estropiado que rasteja ao longo do caminho. Não sei que poder me atrai
para ti; talvez sejas a salvação.  Tu me deixas mais calma, mais reanimada, qual anciã
enregelada que se aquecesse a um raio de sol. Gélida, minha alma se reanima à tua
aproximação.
2. - A minha desgraça aumenta dia a dia, proporcionalmente ao conhecimento
da eternidade. Ó miséria! Malditas sejam as horas de egoísmo e inércia, nas quais,
esquecida de toda a caridade, de todo o afeto, eu só pensava no meu bem-estar!
Malditos interesses humanos, preocupações materiais que me cegaram e perderam!
Agora o remorso do tempo perdido. Que te direi a ti, que me ouves? Olha, vela
constantemente, ama os outros mais que a ti mesmo, não retardes a marcha nem engordes o corpo em detrimento da alma. Vela, conforme pregava o Salvador aos seus
discípulos. Não me agradeças estes conselhos, porque se o meu Espírito os concebe,
o coração nunca os ouviu. Qual o cão escorraçado rastejando de medo, assim me
humilho eu sem conhecer ainda o voluntário amor. Muito tarda a sua divina aurora a
despontar! Ora por minha alma dessecada e tão miserável!
3. - Por que me esqueces, até aqui venho procurar-te. Acreditas que preces
isoladas e a simples pronúncia do meu nome bastarão ao apaziguamento das minhas
penas? Não, cem vezes não. Eu urro de dor, errante, sem repouso, sem asilo, sem
esperança, sentindo o aguilhão eterno do castigo a enterrar-se-me na alma revoltada.
Quando ouço os vossos lamentos, rio-me, assim como quando vos vejo abatido. As
vossas efêmeras misérias, as lágrimas, tormentos que o sono susta, que são? Durmo
eu aqui? Quero (ouviste?) quero que, deixando as tuas lucubrações filosóficas, te
ocupes de mim, além de fazeres com que outros mais também se ocupem. Não tenho
expressões para definir esse tempo que se escoa, sem que as horas lhe assinalem
períodos. Vejo apenas um tênue raio de esperança, foste tu que ma deste: não me
abandones, pois.

4. - O Espírito S. Luís. - Este quadro é de todo verdadeiro e em nada exagerado.
Perguntar-se-á talvez o que fez essa mulher para ser assim tão miserável. Cometeu ela
algum crime horrível? roubou? assassinou? Não; ela nada fez que afrontasse a justiça
dos homens. Ao contrário, divertia-se com o que chamais felicidade terrena; beleza, gozos, adulações,
tudo lhe sorria, nada lhe faltava, a ponto de dizerem os que a viam: - Que mulher feliz!
E invejavam-lhe a sorte. Mas, quereis saber?
Foi egoísta; possuía tudo, exceto um bom coração. Não violou a lei dos
homens, mas a de Deus, visto como esqueceu a primeira das virtudes - a caridade. Não
tendo amado senão a si mesma, agora não encontra ninguém que a ame e vê-se
insulada, abandonada, ao desamparo no Espaço, onde ninguém pensa nela nem dela
se ocupa.
Eis o que constitui o seu tormento. Tendo apenas procurado os gozos
mundanos que hoje não mais existem, o vácuo se lhe fez em torno, e como vê apenas
o nada, este lhe parece eterno. Ela não sofre torturas físicas; não vêm atormentá-la os
demônios, o que é aliás desnecessário, uma vez que se atormenta a si mesma, e isso
lhe é mais doloroso, porquanto, se tal acontecesse, os demônios seriam seres a
ocuparem-se dela. O egoísmo foi a sua alegria na Terra; pois bem, é ainda ele que a
persegue - verme a corroer-lhe o coração, seu verdadeiro demônio.
S. Luís.


5. - Falar-vos-ei da importante diferença existente entre a moral divina e a moral
humana. A primeira assiste a mulher adúltera no seu abandono e diz aos pecadores:
"Arrependei-vos, e aberto vos será o reino dos céus."
Finalmente, a moral divina aceita todo arrependimento, todas as faltas
confessadas, ao passo que a moral humana rejeita aquele e sorri aos pecados ocultos
que, diz, são em parte perdoados. Cabe a uma a graça do perdão, e a outra a
hipocrisia. Escolhei, Espíritos ávidos da verdade! Escolhei entre os céus abertos ao
arrependimento e a tolerância que admite o mal, repelindo os soluços do
arrependimento francamente patenteado, só para não ferir o seu egoísmo e
preconceitos. Arrependei-vos todos vós que pecais; renunciai ao mal e principalmente
a hipocrisia - véu que é de torpezas, máscara risonha de recíprocas conveniências.


6. - "Estou mais calma e resignada à expiação das minhas faltas. O mal não
está fora de mim, reside em mim, devendo ser eu que me transforme e não as coisas
exteriores.
"Em nós e conosco trazemos o céu e o inferno; as nossas faltas, gravadas na
consciência, são lidas correntemente no dia da ressurreição. E uma vez que o estado
da alma nos abate ou eleva, somos nós os juizes de nós mesmos. Explico-me: um
Espírito impuro e sobrecarregado de culpas não pode conceber nem anelar uma elevação que lhe seria insuportável. Assim como as diferentes espécies de seres vivem,
cada qual, na esfera que lhes é própria, assim os Espíritos, segundo o grau de
adiantamento, movem-se no meio adequado às suas faculdades e não concebem outro
senão quando o progresso (instrumento da lenta transformação das almas) lhes
subtrai as baixas tendências, despojando-os da crisálida do pecado, a fim de que
possam adejar antes de se lançarem, rápidos quais flechas, para o fim único e almejado - Deus! Ah! rastejo ainda, mas não odeio mais, e concebo a indizível felicidade do
amor divino. Orai, pois, sempre por mim, que espero e aguardo."


Nota - Na comunicação a seguir, Claire fala de seu marido, que muito a
martirizara, e da posição em que ele se encontra no mundo espiritual. Esse quadro que
ela por si não pôde completar, foi concluído pelo guia espiritual do médium.
7. - Venho procurar-te, a ti, que por tanto tempo me deixas no esquecimento.
Tenho, porém, adquirido paciência e não mais me desespero. Queres saber qual a
situação do pobre Félix? Erra nas trevas entregue à profunda nudez de sua alma.
Superficial e leviano, aviltado pelo sensualismo, nunca soube o que eram o amor e a
amizade. Nem mesmo a paixão esclareceu suas sombrias luzes. Seu estado presente é
comparável ao da criança inapta para as funções da vida e privada de todo o
amparo. Félix vaga aterrorizado nesse mundo estranho onde tudo fulgura ao brilho
desse Deus por ele negado.


8. - O guia do médium. - Vou falar por Claire, visto que ela não pode continuar a
análise dos sofrimentos do marido, sem compartilhá-los:
"Félix - superficial nas idéias como nos sentimentos; violento por fraqueza;
devasso por frivolidade - entrou no mundo espiritual tão nu quanto ao moral como
quanto ao físico. Em reencarnar nada adquiriu e, conseqüentemente, tem de recomeçar
toda a obra. -  Qual homem ao despertar de prolongado sonho, reconhecendo a
profunda agitação dos seus nervos, esse pobre ser, saindo da perturbação,
reconhecerá que viveu de quimeras, que lhe desvirtuaram a existência. Então, maldirá
do materialismo que lhe dera o vácuo pela realidade; apostrofará o positivismo que lhe
fizera ter por desvarios as idéias sobre a vida futura, como por loucura a sua
aspiração, como por fraqueza a crença em Deus. O desgraçado, ao despertar, verá que
esses nomes por ele escarnecidos são a fórmula da verdade, e que, ao contrário da
fábula, a caça da presa foi menos proveitosa que a da sombra.
Georges."


Estudo sobre as comunicações de Claire
Estas comunicações são instrutivas por nos mostrarem principalmente uma
das feições mais comuns da vida - a do egoísmo. Delas não resultam esses grandes
crimes que atordoam mesmo os mais perversos, mas a condição de uma turba enorme
que vive neste mundo, honrada e venerada, somente por ter um certo verniz e isentar-se do opróbrio da repressão das leis sociais. Essa gente não vai encontrar castigos
excepcionais no mundo espiritual, mas uma situação simples, natural e consentânea
com o estado de sua alma e maneira de viver. O insulamento, o abandono, o
desamparo, eis a punição daquele que só viveu para si. Claire era, como vimos, um
espírito assaz inteligente, mas de árido coração. A posição social, a fortuna, os dotes
físicos que na Terra possuíra, atraiam-lhe homenagens gratas à sua vaidade - o que lhe
bastava; hoje, onde se encontra, só vê indiferença e vacuidade em torno de si.
Essa punição é não somente mais mortificante do que a dor que inspira
piedade e compaixão: mas é também um meio de obrigá-la a despertar o interesse de
outrem a seu respeito, pela sua morte.
A sexta mensagem encerra uma idéia perfeitamente verdadeira concernente à
obstinação de certos Espíritos na prática do mal.
Admiramo-nos de ver como alguns deles são insensíveis à idéia e mesmo ao
espetáculo da felicidade dos bons Espíritos. É exatamente a situação dos homens degradados que se deleitam na depravação como nas praticas grosseiramente sensuais.
Esses homens estão, por assim dizer, no seu elemento; não concebem os prazeres
delicados, preferindo farrapos andrajosos a vestes limpas e brilhantes, por se acharem
naqueles mais à vontade. Daí a preterição de boas companhias por orgias báquicas e
deboches. E de tal modo esses Espíritos se identificam com esse modo de vida, que
chega a constituir-lhes uma segunda natureza, acreditando-se incapazes mesmo de se
elevarem acima da sua esfera. E assim se conservam até que radical transformação do
ser lhes reavive a inteligência, lhes desenvolva o senso moral e os torne acessíveis às
mais sutis sensações.
Esses Espíritos, quando desencarnados, não podem prontamente adquirir a
delicadeza dos sentimentos, e, durante um tempo mais ou menos longo, ocuparão as
camadas inferiores do mundo espiritual, tal como acontece na Terra; assim
permanecerão enquanto rebeldes ao progresso, mas, com o tempo, a experiência, as
tribulações e misérias das sucessivas encarnações, chegará o momento de
conceberem algo de melhor do que até então possuíam. Elevam-se-lhes por fim as
aspirações, começam a compreender o que lhes falta e principiam os esforços da
regeneração.
Uma vez nesse caminho, a marcha é rápida, visto como compreenderam um
bem superior, comparado ao qual os outros, que não passam de grosseiras
sensações, acabam por inspirar-lhes repugnância.