Em uma manhã de domingo ensolarado, quem pudesse olhar no interior de uma modesta casa em um bairro um pouco afastado do centro de uma grande cidade do interior do estado de São Paulo, observaria uma mulher de 29 anos deitada na cama abraçada a uma menina de quatro anos e a um garoto de cinco anos.
Sueli viera da capital para o interior há três anos e dois meses, fugindo da truculência de seu ex marido.
Alugou uma casa e vivia só com os filhos, a alegria de sua alma, seu tesouro.
Suas crianças eram um presente de Deus para ela. Agradecia várias vezes a Deus em preces por ter recebido esta benção. Principalmente a caçula, a quem beijava e abraçava muitas vezes.
Assim que chegou à cidade do interior Sueli teve alguma dificuldade em encontrar trabalho, mas saiu-se relativamente bem, apesar das dificuldades.
A loja de roupas em que trabalhava vinha passando por dificuldades há algum tempo, até que a dona teve que fechá-la e dispensar Sueli, pois não podia mais pagá-la.
Ela fez tudo o que podia para que seus filhos não fossem privados do necessário.
Apesar de seu esforço e paciência, seus escassos recursos pecuniários não foram suficientes para prover suas necessidades até a primeira parcela do seguro desemprego, com o qual ela contava. Ela deixou de pagar a conta de energia elétrica do mês mais algumas contas e usou o dinheiro para prover às necessidades indispensáveis.
Assim,“apertando o cinto,” ela passou os dias até chegar a data do pagamento da primeira parcela do seguro desemprego.
No dia marcado ela dirigiu-se à agência bancária designada para pagamento do seguro desemprego. A funcionária que a atendeu solicitou os documentos necessários e digitou algumas coisas no computador. Depois de digitar no computador a funcionária disse a Sueli que não era possível o pagamento do seguro desemprego devido à divergência de dados em um documento enviado por sua ex patroa. Ela orientou Sueli para dirigir-se ao seu antigo emprego e procurar sua ex patroa.
Com o coração aos pedaços ela saiu da agência abalada e profundamente magoada. Dirigiu-se diretamente à casa de sua ex patroa, a qual reconheceu ter errado no preenchimento de uma guia e pediu mil desculpas à Sueli. Ela voltou à agência, deu entrada novamente nos documentos necessários e foi informada que o dinheiro estaria disponível de trinta a quarenta dias depois.
Só Deus sabe o estado de espírito que ela estava ao sair pela segunda vez da agência. A primeira imagem que passou pela sua mente foi seus pequeninos. “Meu Deus! O que vou fazer?”
Como um autômato, sem perceber o que fazia, dirigiu-se ao ponto do ônibus, depois de alguns minutos embarcou no ônibus, pagou a passagem e sem notar como, chegou à sua casa cansada e muito triste. O que ela podia fazer? Não tinha amigos ou parentes na cidade. Seus familiares eram tão pobres quanto ela. Seria inútil recorrer a eles.
Sentada em uma cadeira na cozinha de sua casa, sozinha àquela hora, pois as crianças estavam na creche, ela olhava as prateleiras de seu armário completamente vazias e lançava um olhar profundamente triste à geladeira vazia. Só se preocupava com o tesouro de seu coração. Lágrimas abundantes caíram de seus olhos ao sentir o fantasma da fome rondar seu lar, não por ela, mas sofria terrivelmente por causa das crianças.
Ela sentia-se tremendamente culpada por deixar faltar alimento às suas crianças.
Sem comer coisa alguma, ela passou o dia chorando em seu quarto até à tarde quando teve que buscar as crianças na creche. As crianças haviam almoçado na creche. Ela vasculhou seu armário até encontrar restos de pacotes contendo farinha de trigo, fez um mingau e serviu apenas às crianças, pois não havia suficiente para ela.
Assim passou-se o restante do dia até à noite, quando com o coração partido e pesado como chumbo, ela pôs as crianças em suas camas beijando as faces de cada uma delas, acariciando seus cabelos.
Ao olhar para o rosto querido de sua caçula e ver seu sorriso lindo e puro, não conseguiu estancar as lágrimas abundantes que desciam espontaneamente de seus olhos. Usando toda sua força de vontade, desviou imediatamente o olhar para outro lado e fingiu pegar algo no guarda roupa não dando tempo para a menina ver seus olhos. Imediatamente apagou a lâmpada e foi para a cozinha.
Lá ficou solitária e acabrunhada, sentindo a fome apertar-lhe o estômago vazio, até que cansadíssima e transtornada até o fundo da alma, um sono benfazejo tomou conta de si. Ela apagou a lâmpada e voltou ao quarto onde as crianças já dormiam.
Elas pareciam dois anjos adormecidos no silêncio do quarto. Suas cabecinhas pequenas pareciam feitas de um raio de luar misturado ao brilho da mais bela estrela do céu que se estende sobre nós até o infinito.
Sueli teve pesadelos naquela noite, acordou várias vezes durante a noite com a sensação mortificante da fome a corroer-lhe o estômago.
Durante a madrugada, faminta e imensamente amargurada, sentou-se na cama, olhou para o céu e fez a prece mais sentida de sua vida. De olhos fechados disse mentalmente: “Meu Deus! Sei que o seu poder é infinito. Para o Senhor tudo é possível! Peço ao Senhor não por mim, mas por meus filhos. Não me importo de suportar a fome, mas eles são tão pequenos...Meu Senhor! Nos acuda!``
Ao terminar a prece dormiu outra vez até às oito e meia da manhã, pois era um sábado. Sueli levantou-se com um estado de espírito totalmente diferente daquele que estava ao dormir. Apesar de levemente fraca devido à fome, sentia-se amparada e serena. Ao pisar no chão ouviu distintamente uma voz dizer-lhe dentro de si: “Vá ao grande supermercado na avenida perto daqui.” De fato, havia na avenida próximo à rua em que ela morava um supermercado de uma grande rede.
Sem hesitar ela dirigiu-se ao supermercado. Entrou no supermercado e ouviu a mesma voz dizer-lhe: “Pegue um carrinho e coloque tudo o que quiser nele.” Ela não hesitou, encheu o carrinho até transbordar de mercadorias. Ao terminar de lotar o carrinho ouviu a mesma voz dizer: “Pegue outro carrinho e encha ele de mercadorias.” Novamente sem qualquer hesitação ela pegou outro carrinho e encheu de mercadorias. A voz falou desta vez: “Passe os carrinhos no caixa 6.” Sueli ainda não hesitou. Pegou os carrinhos e foi até o caixa 6. Chegando ao caixa foi colocando as mercadorias no balcão e passando as mercadorias à moça do caixa que registrava as mercadorias normalmente como uma compra comum. Sueli ia passando as mercadorias uma a uma com naturalidade como se tivesse com a carteira cheia de dinheiro. A moça registrava tudo...
Quando já acabava o segundo carrinho ouviu a voz do alto falante dizer: “O cliente que agora estiver passando no caixa 6 vai levar sua compra totalmente grátis.” Todos os olhares do supermercado voltaram-se para o caixa 6 e muitos sorriram à mulher que estava lá.
Sueli deu seu endereço para a entrega em sua casa e partiu. Ao chegar em casa abraçou seus filhos e lágrimas desciam outra vez de seus olhos, agora sorridentes,mas desta vez ela não escondeu o rosto da filha que tinha ao colo naquele momento. Um sentimento maravilhoso que mesmo o maior escritor do mundo não poderia exprimir tomou conta de seu coração.
-Mãe, por que você está chorando? Perguntou sua filhinha.
-É alegria, meu amor.
-Por que você está alegre?
Ela respondeu com a voz embargada pelas lágrimas:
-Deus é maravilhoso...