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"O homem deve ser amigo da mulher. E no seu amor, deve respeitar sua alma e seu corpo como sagrados que são."
Ghandi.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Um cantinho para a virtude.


Abençoadas são elas, ainda que falem demais e irritem nossa paciência.
Abençoadas são elas, ainda que mexeriquem e fofoquem.
Abençoadas são elas ainda que ignorantes e maltratadas.
Abençoadas são elas ainda que o mal viceje em seus corações.
Abençoadas são elas ainda que deturpadas no lodo da depravação.
Elas falam demais, mas suas palavras acalentam e encantam.
Elas fofocam e mexericam, mas  preocupam-se com outrem.
Se a ignorância as degradam, elas assim mesmo sacrificam-se por outros.
Se o mal viceja em suas almas, ainda assim são mais propensas ao bem.
Se enlameadas no lodaçal da depravação, assim mesmo são mais inclinadas à melhora.
Pobre homem que não compartilha estas bênçãos e persevera no mal infausto.
Pobre homem sempre a prevaricar e do orgulho escravo pertinaz.
O que dirá o homem no dia de seu juízo?
Elas perderam-se, mas sempre guardam um pouco
de virtude na alma.
No dia de seu juízo elas trocarão este bocado de virtude por bênçãos divinas.
E o homem o que oferecerá no seu dia de juízo?
Sua alma fria, seu coração insensível?
Seu egoísmo inconsequente?
Sua iniquidade prepotente?
O que oferecerá este tolo orgulhoso em troca de bênçãos divinas que possam amenizar suas dolorosas penas no dia fatal de seu juízo?
Ah! tolice mortal! Ah! obstinação nefasta!
Nenhum cantinho em seu coração
guardou ele para a virtude redentora.
Não tem ele o que trocar por bênçãos misericordiosas.
Não resta senão chorar sua mágoa culposa e sorver seu cálice amargo de dores até a última gota.
Portanto, façamos como elas e sejamos abençoados nós também naquele dia, façamos como elas humanas, fracas, mas não se distanciam demasiado do bem.
Guardemos em nossos corações um cantinho para a virtude...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Julie.




Foi na biblioteca de minha cidade que eu a conheci. Eu fingia ler, mas observava atentamente a bonita moça sentada à mesa diante de mim. Quem seria ela? Como seria sua vida?  Qual seria sua história? Pensava eu, sentindo exalar de seu bonito cabelo castanho alourado um agradável perfume.
Eu observava as linhas graciosas de suas costas enquanto ela lia um livro bem à minha frente. Desviei o foco de minha leitura para a formosa figura diante de mim. Meu olhar espraiava seu dorso observando cada detalhe...
Passaram-se os dias. Quando eu via o ponteiro do relógio chegar às dez horas, meus olhos voltavam involuntariamente para a porta e logo viam aparecer uns lindos olhos azuis que me fitavam fixamente antes da moça sentar-se...
Um dia, estávamos apenas ela e eu na sala de leitura, era o momento oportuno, perguntei:
_Você está cursando alguma faculdade? Ela interrompeu a leitura, voltou-se para mim e respondeu com um bonito sorriso:
_ Eu estou “fazendo” psicologia.
Então, começamos uma agradável conversa. Enquanto ela falava eu perscrutava os traços de seu rosto. Ela tinha traços delicados, um rosto bonito, mas o que me chamou a atenção foi sua boca: tinha uma boca delicada, os lábios pequenos e delicados como toda sua figura. Sentia-se uma irresistível vontade de beijar aqueles lábios... Ela tinha um delicioso ar de afabilidade e simpatia delicada que encantava a qualquer um.
Ela tinha 23 anos e não 17 como eu pensava. Casou-se aos 19 anos, naquele momento estava separada do marido e tinha uma filha. Enquanto ela falava não pude deixar de observar que embora elegante, ela era bem magra.
Foi esta a única ocasião que tivemos um contato mais demorado. Encontrei-a várias vezes na biblioteca e em outros lugares da cidade, mas sempre rapidamente.
Em um destes encontros rápidos entreguei-lhe uma poesia que escrevi. Seus olhos pousaram na folha escrita e leram:

A lua tem a luz que brilha,
você tem o olhar que ilumina.
A lua tem a paz que acalma,
você tem a doçura que encanta.

A lua reina na solidão,
você resplandece na multidão.
A lua incentiva o sonho da alma,
você desvenda os tesouros do coração.

A lua espalha beleza pelo céu,
você irradia amor pela Terra.
A lua desperta a poesia dos homens,
você... A alegria dos anjos.

E o destino nos separou... Nossas vidas tomaram rumos diferentes, depois de algum tempo nossos encontros tornaram-se cada vez mais esporádicos.
Um dia, olhando a cadeira vazia diante de mim resolvi usar um recurso que já utilizei várias vezes quando tenho alguma dúvida: consultar a bíblia ou outro livro, mas preferencialmente a bíblia. Há muitos anos uso este recurso, várias vezes as respostas impressionaram não apenas pela relevância, mas por revelações insólitas.
Mentalizei  sua formosa figura e abri a bíblia; pousei meus olhos na palavra “Prostituta”. Perguntei mentalmente: “Por que ela está tão magra?” Novamente abri ao acaso a bíblia e meus olhos foram parar na palavra “Doença.” Fiz nova pergunta mental: Essa doença é fatal? Abri a bíblia e meus olhos pousaram na palavra “Morte”.
Imediatamente veio-me à mente a última vez que eu a vi. Fiquei bastante impressionado com sua magreza, ela havia emagrecido mais ainda, seu corpo parecia ter secado.

Passaram-se muitos meses, o tempo caminhava em seu passo cadenciado, a vida seguia sua marcha possante; dias, noites, iam e viam em sua sucessão perpétua. Durante o dia um sol majestoso brilhava por toda a cidade, durante a noite o céu luzia miríades de estrelas em sua imensidão infinita, como um conforto de Deus  aos infelizes mortais deste mundo...
Certo dia, estava a caminho da biblioteca quando senti a estranha sensação de estar sendo seguido. Olhei várias vezes para todos os lados, ninguém me observava, mas estava incomodado por uma insistente sensação de estar acompanhado, embora não houvesse ninguém por perto. Tal sensação continuou até a biblioteca. Se quando estava na rua senti-me transtornado, na biblioteca a sensação era mais forte e diferente. Não consegui concentrar-me na leitura, parecia-me sentir fortemente a presença da moça nas salas da biblioteca, sua figura interpunha-se entre meus olhos e a página que eu lia. Fiquei confuso...
No dia seguinte procurei um conhecido que tinha uma banca de livros espíritas, com quem eu algumas vezes conversei. Ele mantinha uma casa espírita Kardecista. Contei-lhe sucintamente o caso e ele prometeu ajudar.
Na semana seguinte fui informado por ele que na última sessão um dos espíritos colaboradores da casa viu a moça em um estabelecimento no além que recebia pessoas recém-mortas. Ela estava deitada em uma cama chorando e junto dela uma mulher idosa acariciava lhe os cabelos.
Orei muitas vezes por ela durante várias semanas.
Depois de algumas semanas, estava só em meu quarto escrevendo quando senti nitidamente alguém me beijar na testa, ao mesmo tempo em que sentia como uns dedos invisíveis acariciar meus cabelos docemente... Senti fortemente a presença dela, junto a um impulso para escrever as palavras que me vinham à mente. Hesitei um pouco, mas cedi. Escrevi na folha em branco:
 Oi! Sou eu, não se preocupe!
Perguntei mentalmente: Como está você? E escrevi na folha:
Bem melhor!
Apesar de já ter lido muitos livros espíritas, uma pontinha de curiosidade humana motivou-me a fazer um inquérito pessoal, mas controlei-me. Tão logo este pensamento vinha-me à mente escrevi:
Não se preocupe, pergunte!
E assim enchi dois grandes cadernos com muitas mensagens e diálogos entre eu e minha bela companheira do além.
Fiz muitas perguntas sobre sua situação pessoal e outras de interesse geral.
Uma das questões que mais me interessavam era a causa de sua morte. Pensei na pergunta e logo senti desejo de escrever na folha de papel: “Você sabe!” Era a confirmação de minha suspeita, ela foi outra vítima da AIDS.
Eram momentos deliciosos aquelas conversas que tínhamos na solidão de meu quarto, eu sentia o coração inundado por um regozijo maravilhoso. Muitas vezes parecia-me sentir fisicamente suas mãos a me acariciar.
“Há mais coisas entre o céu e a terra do que nos ensina a nossa vã filosofia”. Esta frase de Shakespeare retrata bem o lado misterioso da existência humana e seus enigmas... Lembro bem um dia em que recebi a visita de minha mãe, que nunca havia visto a moça e mesmo sequer imaginava a existência de meu segredo, voltar-se para mim diante da porta de meu quarto fechada e dizer com o rosto transtornado: “Vi uma moça entrar no seu quarto agora!” Ao ser inquirida por mim sobre a aparência da moça, fez com minúcia a  descrição física da garota que eu conheci na biblioteca...
Em outra ocasião estávamos apenas eu e dois garotos na sala. Eles fotografavam na sala, quando um deles disse ter visto nas fotos da máquina fotográfica a nítida figura de uma mulher...
Quantas vezes, quando eu acordava, caminhava cuidadosamente por meu quarto preocupado em pisar em seu corpo invisível...
Senti um aperto no coração quando ela contou-me sua angústia e sofrimento após o sono da morte, o horror ao despertar em uma região tenebrosa, ouvindo gritos e lamentos horrorosos, cercada de seres grotescos, bestiais, perdida, desorientada... Ela sentia seu corpo arder como se estivesse sendo queimado vivo, uma terrível sede incessante sem poder aplacá-la, pensou que ia desfalecer de dor. Ela bem sabia o motivo de tanta dor: a prostituição, a devassidão...
Ela chorou amargamente, sentia-se solitária e desamparada e aquela sensação de sede e calor infernal a sufocar lhe a garganta sequiosa sem ter como amenizar... “Água!” Ela pedia, “Água!”, ela implorava, mas não enxergava nada nas brumas densas  escuras que a cercavam. Então, quando já desesperava, quando tudo parecia completamente perdido viu uma luz vir do alto, descer até sua nuca e espalhar-se por todo seu corpo causando uma sensação de conforto e bem estar. Um sono irresistível entorpeceu lhe os membros, ela dormiu... Quando acordou estava deitada em uma cama sentindo uns dedos carinhosos acariciando-a. Ela chorou...
Eu estava muito longe de imaginar que a luz que ela recebeu foi devido às minhas preces.
Já se passaram sete anos, continuo recebendo sua visita carinhosa.
Não, minha querida! Não foi você a maior beneficiada em nosso idílio secreto, não fiz mais do que passar a você a bondade que recebo de Deus todos os dias. Não, meu tesouro! Não tente minha vaidade com seus agradecimentos! Se a bondade de Deus me usou para salvá-la, você salvou-me de minha solidão...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Elas e eles.


Podem os homens falar o que quiserem das mulheres.
Podem eles reclamar da tagarelice, futilidade e até da maldade feminina, mas muito da culpa da infelicidade em relacionamentos deve-se principalmente aos homens.
Um homem, quase sempre, se aproxima de outra pessoa para explorá-la de alguma forma, raro é que ele não esteja mal intencionado; é egoísta, perverso e imaturo.
Uma mulher também comete baixezas, mas é sempre mais acessível ao bem. Frequentes vezes o demônio usa o homem como instrumento de suas malignas intenções e o infeliz sempre cede... Ah! Pobre criatura é o homem, escravo de suas perversas fraquezas. Ele só aprende sofrendo... Somente a dor o obsta.
Assim, os relacionamentos masculinos são antes armadilhas para as mulheres, ao invés de uma oportunidade para um melhor conhecimento da personalidade feminina.
 O orgulho e vaidade masculina cria uma forte barreira entre o homem e a mulher. Falta ao homem a boa vontade em sacrificar sua vontade a favor de outrem. Seu egoísmo impede isto... Este egoísmo aliado ao orgulho e vaidade masculina são os principais destruidores de relacionamentos bem sucedidos.
Quantos casais viveriam mais felizes se o orgulho e vaidade do homem não interferissem no relacionamento! Quanta alegria não poderia um homem desfrutar se sacrificasse sua vontade no altar do amor a outrem!
O coração feminino é como um violino: há cordas sensíveis que se tocadas por um artista hábil encantam nossa alma, mas nas mãos de um inábil irritam nossa sensibilidade. Depende sempre do artista...
Muito da frieza masculina provém de seu egoísmo, pois acariciar, abraçar, dizer frases ternas a uma mulher, olhar bem no fundo de seus olhos, é abandonar nosso eu egoísta em prol de outrem, coisa difícil para o infeliz e presunçoso homem.