Ela trabalhou a vida inteira para comprar a casa de seus sonhos. Desde pequena ela prometeu a si própria dar-se o luxo de uma casa grande e confortável, mesmo que para isto tivesse que esfalfar-se a vida inteira.
De origem humilde, ela sempre se incomodou com a estreiteza de sua modesta residência em casa de seus pais.
Assim passou-se o tempo e sem perceber como, ela viu-se com mais de quarenta anos em uma confortável situação financeira.
Ela já tinha casa própria, mas o demônio da vaidade espicaçou-lhe a alma. Ela decidiu vender sua casa simples, contratar um financiamento junto ao banco para compor o valor total da construção da casa de seus sonhos, pois ela já tinha o terreno.
Ela conseguiu o financiamento, contratou um pedreiro e acompanhou assiduamente a construção.
Os dias iam e viam, semanas chegavam, formavam meses e passavam.
Ela observava um tanto ufana a edificação de seu sonho.
Perto de chegar o prazo contratado para término da obra o pedreiro solicitou mais material. Ela percebeu que seu orçamento estava abaixo da realidade. Conformou-se a isto, economizou tudo o que podia e comprou o restante do material necessário.
O tempo caminhava em seu passo cadenciado. A terra girava em torno do sol, o sol girava em redor do centro da via láctea e tudo seguia seu próprio destino estabelecido pela sapiência de Deus.
Após sete meses ela já estava estabelecida em sua nova casa mobiliada com bom gosto.
Ela era solteira. Desde muito jovem optou por sua independência. Ela teve muitos casos amorosos.
Assim rolaram os anos. Ela vivia solitária em sua casa grande, muito bem mobiliada, mas vazia daquilo que mais
preenchia a alma.
Uma vez ou outra ela recebia a visita de parentes e amigos, os quais chegavam e partiam, seguindo o ritmo de tudo.
Um dia, depois de mais de uma década em sua casa e já aposentada, ela recebeu uma ligação telefônica de uma sobrinha, a qual pediu-lhe para cuidar de seu filho com apenas dois anos de idade por uma semana, pois ela precisava viajar e não tinha mais alguém de confiança para deixar seu filho.
Ela aceitou. Quatro dias depois a sobrinha chegou carregando seu filho no colo.
Uma nova sensação invadiu o coração dela naquela semana em que ela cuidou daquela criatura fofa e delicada. Seu coração regozijou até as mais íntimas fibras. Um sentimento de doçura inolvidável, que mesmo a maior fortuna do mundo não compra, invadiu seu coração.
Naquela semana ela acordava alegre e bem disposta, muito diferente dos tristes e entediados dias passados. A primeira coisa que fazia era entrar no quarto ao lado, beijar e abraçar o garoto, o qual sorria com aquele sorriso puro e luminoso que só as crianças pequenas têm.
Parecia que todo o universo sorria para si. Tudo tornou-se mais belo. As pessoas, as coisas, a cidade, o mundo tornaram-se subitamente luminosos, como se milhões de estrelas gigantes iluminassem repentinamente a escuridão trevosa deste recanto minúsculo perdido no espaço infinito.
Mas chegou o dia combinado para sua sobrinha buscar o garoto. A sobrinha não percebeu o olhar tristonho e amargurado estampado no rosto dela enquanto se despedia.
Na manhã seguinte ela levantou-se e quis instintivamente ir ao quarto ao lado para beijar e abraçar o menino, quando lembrou-se que ele não estaria mais lá.
Só Deus sabe o vazio medonho que tomou conta de si nos próximos dias após a partida do garoto. Ela sentiu-se agoniada até o fundo da alma. Um sentimento de solidão horroroso junto a outro sentimento de inanidade e inutilidade invadiu sua alma e corroeu seu coração como ácido causticante. Ela sentia seu coração minar corroído pela amargura tétrica que assombrava sua alma e a envenenava dia a dia.
Um dia ela acordou na madrugada e depois de dar alguns passos pelo quarto deparou-se com sua imagem refletida no espelho do quarto. Ela não acreditava! Aquela mulher com os cabelos totalmente brancos, a testa enrugada, o rosto pálido e agoniado não poderia se ela, só poderia ser outra pessoa!
Depois deste dia ela mergulhou em uma profunda tristeza que arruinou-lhe a saúde física e mental rapidamente.
Ela parecia um zumbi, sem vida e sem alma, caminhando cabisbaixo e deprimido por toda a casa.
O que mais a torturava era um sentimento cortante de arrependimento por ter secado a fonte da vida sem cumprir o papel sagrado da maternidade, determinado pela sapiência infinita de Deus. Isto a torturava terrivelmente. Não podia fugir a um agonizante sentimento de traição para com Deus. Várias vezes no silêncio pesado e mortificante de sua pavorosa dor repetia: “Senhor, me perdoe.”
Sem muita demora o peso de suas misérias a abateu totalmente e ela morreu solitária, doente, amargurada e pavorosamente triste em sua casa grande e confortável.
A empregada que encontrou seu corpo exangue na cama disse que ainda ouviu sua voz cansada dizer: “Meu Deus, me perdoe.”
Em menos de dois meses sua casa foi vendida por suas sobrinhas a um grupo de empresários que a destruíram para construir uma grande loja.
Abaixo de uma lápide, junto a um canteiro de rosas, seu corpo repousava frio e sem vida. Mas e sua alma, seu verdadeiro ser onde estava?
Quem pudesse enxergar o mundo pulsante e cheio de vida da espiritualidade eterna avistaria um charco feito de substâncias etéreas. Uma nuvem escura asquerosa espalhava-se por todo o local. Milhares de almas gemiam e sufocavam, algumas gritavam, outras lastimavam.
E lá estava ela em meio a este inferno dantesco.Ela gemia.
Ela sentia um ardor terrível e doloroso a queimar-lhe as entranhas íntimas, a fonte sagrada da vida e repetia sem cessar: “Meu Deus, me perdoe.”