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"O homem deve ser amigo da mulher. E no seu amor, deve respeitar sua alma e seu corpo como sagrados que são."
Ghandi.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Pecado e punição. Do livro " A boa nova".




Jesus havia terminado uma de suas pregações na praça pública, quando percebeu que
a multidão se movimentava em alvoroço. Alguns populares mais exaltados prorrompiam em
gritos, enquanto uma mulher ofegante, cabelos desgrenhados e faces macilentas, se
aproximava dele, com uma súplica de proteção a lhe sair dos olhos tristes. Os muitos judeus
ali aglomerados excitavam o ânimo geral, reclamando o apedrejamento da pecadora, na
conformidade das antigas tradições.
Solicitado, então, a se constituir juiz dos costumes do povo, o Mestre exclamou com
serenidade e desassombro, causando estupefação aos que o ouviram :
– Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra.
Por toda a assembléia se fez sentir uma surpresa inquietante. As acusações morreram
nos lábios mais exaltados. A multidão ensimesmava-se, para compreender a sua própria
situação. Enquanto isso, o Mestre pôs-se a escrever no solo despreocupadamente.
Aos poucos, o local ficara quase deserto. Apenas Jesus e alguns discípulos lá se
conservavam, tendo ao lado a mulher a ocultar as faces com as mãos.
Em dado instante, o Mestre Divino ergueu a fronte e perguntou à infeliz :
– Mulher, onde estão os teus juízes?
Observando que a pecadora lhe respondia apenas com o olhar reconhecido, onde as
lágrimas aljofravam num misto de agradecimento e alegria, Jesus continuou :
– Ninguém te condenou? Também eu não te condeno. Vai e não peques mais.
A infeliz criatura retirou-se, experimentando uma sensação nova no espírito. A
generosidade do Messias lhe iluminava o coração, em claridades vivas que lhe banhavam a
alma toda. Mas, enquanto a pecadora se retirava, presa de intensa alegria, os poucos
discípulos que se encontravam junto do Senhor não conseguiam ocultar a estranheza que lhes
causara o seu gesto. Por que não condenara ele aquela mulher de vida censurável aos olhos de
todos? Não se tratava de uma adúltera? Nesse ínterim, João se aproximou e interrogou:
– Mestre, por que não condenastes a meretriz de vida infame?
Jesus fixou no discípulo o olhar calmo e bondoso e redargüiu :
– Quais as razões que aduzes em favor dessa condenação? Sabes o motivo por que
essa pobre mulher se prostituiu? Terás sofrido alguma vez a dureza das vicissitudes que ela
atravessou em sua vida? Ignoras o vulto das necessidades e das tentações que a fizeram
sucumbir a meio do caminho. Não sabes quantas vezes tem sido ela objeto do escárnio dos
pais, dos filhos e dos irmãos das mulheres mais felizes. Não seria justo agravar-lhe os
padecimentos infernais da consciência pesarosa e sem rumo.
– Entretanto – exclamou João, defendendo os princípios da lei antiga – ela pecou e
fez jus à punição. Não está escrito que os homens pagarão, ceitil por ceitil, os seus próprios
erros?
O Mestre sorriu sem se perturbar e esclareceu :
– Ninguém pode contestar que ela tenha pecado; quem estará irrepreensível na face
da Terra? Há sacerdotes da lei, magistrados e filósofos, que prostituíram suas almas por mais
baixo preço ; contudo, ainda não lhes vi os acusadores. A hipocrisia costuma, campear
impune, enquanto se atiram pedras ao sofrimento. João, o mundo está cheio de túmulos
caiados. Deus, porém, é o Pai de Bondade Infinita que aguarda os filhos pródigos em sua
casa. Poder-se-ia desejar para a pecadora humilde tormento maior do que aquele a que ela
própria se condenou por tempo indeterminado? Quantas vezes lhe tem faltado pão à boca
faminta ou a manifestação de um carinho sincero à alma angustiada? Raras dores no mundo
serão idênticas às agonias de suas noites silenciosas e tristes. Êsse o seu doloroso inferno, sua,
aflitiva condenação. É que, em todos os planos da vida, o instituto da justiça divina
funciona, natura!mente, com seus princípios de compensação.
“Cada ser traz consigo a fagulha sagrada do Criador e erige, dentro de si, o santuário
de sua presença ou a muralha sombria da negação; mas, só a luz e o bem são eternos e, um.
dia, todos os redutos do mal cairão, para que Deus resplandeça no espírito de seus filhos. Não
é para ensinar outra coisa que está escrito na lei – “Vós sois deuses!”Porventura, não sabes
que a herança de um pai se divide entre os filhos em partes iguais? As criaturas transviadas
são as que não souberam entrar na posse de seu quinhão divino, permutando-o pela satisfação
de seus caprichos no desregramento ou no abuso, na egolatria ou no crime, pagando alto preço
pelas suas decisões voluntárias. Examinada a situação por êsse prisma, temos de reconhecer
no mundo uma vasta escola de regeneração, onde tôdas as criaturas se reabilitam da traição
aos seus próprios deveres. A Terra, portanto, pode ser tida na conta de um grande hospital,
onde o pecado é a doença de todos ; o Evangelho, no entanto, traz ao homem enfermo o
remédio eficaz, para que tôdas as estradas se transformem em suave caminho de redenção.
“É por isso que não condeno o pecador para afastar o pecado e, em tôdas as
situações, prefiro acreditar sempre no bem. Quando observares, João, os seres mais tristes e
miseráveis, arrastando-se numa noite pejada de sombra e desolação lembra-te da semente
grosseira que encerra um gérmen divino e que um dia se elevará do seio da terra para o beijo
de luz do Sol.”
Terminada a explicação do Mestre, o filho de Zebedeu, deixando transparecer na luz
do olhar a sua profunda admiração pôs-se a meditar nos ensinamentos recebidos.
***
Muito tempo ainda não transcorrera depois desse acontecimento, quando Jesus subiu
de Cafarnaum. para Jerusalém, acompanhado por alguns de seus discípulos. Celebravam-se
festas tradicionais entre os judeus. O Messias chegou num sábado, sob a fiscalização severa
dos espíritos rigoristas de sua época. Não foram poucos os paralíticos que o cercaram
ansiosos pelo benefício de sua virtude salvadora. Escandalizando os fanáticos, o Mestre orava
e consolava, na sua jornada de gloriosa redenção. Explicando que o sábado fora feito para o
homem e não o homem para o sábado, enfrentava sorridente as preocupações dos mais
exigentes.
Vendo tantos cegos e aleijados aglomerados à passagem, "Tiago o interpelou:
– Mestre, sendo Deus tão misericordioso, porque pune seus filhos com defeitos e
moléstias tão horríveis?...
– Acreditas, Tiago – respondeu Jesus – que Deus desça de sua sabedoria e de seu
amor para punir seus próprios filhos? O Pai tem o seu plano determinado com respeito à
criação inteira; mas, dentro desse plano, a cada criatura cabe uma parte na edificação, pela
qual terá de responder. Abandonando o trabalho divino, para viver ao sabor dos caprichos
próprios, a alma cria para si a situação correspondente, trabalhando para reintegrar-se no
plano divino, depois de se haver deixado levar pelas sugestões funestas, contrárias à sua
própria paz.
João compreendeu que a Palavra do Messias era a confirmação dos ensinamentos
que já ouvira de seus lábios, na tarde em que a multidão exigia o apedrejamento da pecadora.
Afastaram-se, em seguida, do Tanque de Betsaida cujas águas eram tidas, em
Jerusalém, na conta de miraculosa e onde o Mestre fizera andar paralíticos, dera vista a cegos
e limpara leprosos. Na companhia de Tiago e João, o Senhor encaminhou-se para o templo,
onde um dos paralíticos que ele havia curado relatava o acontecido, cheio de sincera alegria.
Jesus aproximou-se dele e deixando entrever aos seus discípulos que desejava confirmar os
ensinamentos sobre pecado e punição, falou-lhe abertamente, como se lê no texto evangélico
de João : – “Eis que estás são. Não peques mais, para que te vão suceda coisa pior.”
Desde que esses ensinos foram dados, novas idéias de fraternidade povoaram o
mundo, com respeito aos transviados, aos criminosos e aos inimigos, atingindo a própria
organização política dos Estados.
O Império Romano vulgarizara os mais nefandos processos de regeneração ou de
vingança. Escravos ignorantes eram pasto das feras, nos divertimentos públicos, pelas faltas
mais insignificantes nas casas dos patrícios. Só de uma vez, trinta mil desses servos, a quem
se negava qualquer bem do espírito, foram crucificados numa festa, próximo aos soberbos
aquedutos da Via Ápia. Os açoites humilhantes eram castigo suave.
Entretanto, desde a tarde em que Jesus se encontrou com a pecadora em frente da
multidão, um pensamento novo entrou a dominar aos poucos o espírito do mundo. A
substância evangélica do ensino inolvidável penetrou o aparelho judiciário de todos os povos.
A sociedade começou a compreender suas obrigações e procurou segregar o criminoso, como
se isola um doente, buscando auxiliar-lhe a reforma definitiva, por todos os meios ao seu
alcance. Os menores delinqüentes foram amparados pelas numerosas escolas de regeneração.
Todo o sistema da justiça humana evolveu para os princípios da magnanimidade, e os juízes
modernos, lavrando suas sentenças, sem nunca haverem manuseado o Novo-Testamento,
talvez ignorem, que procedem assim por ter sido Jesus o grande reformador da criminologia.
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Capítulo do livro "A boa Nova". Maria de Magdala.


XX- MARIA DE MAGDALA
Maria de Magdala ouvira as pregações do Evangelho do Reino, não longe da Vila principesca onde
vivia à conta de prazeres, em companhia de patrícios romanos, e tornara-se de admiração profunda pelo
Messias.
Que novo amor era aquele apregoado aos pescadores singelos por lábios tão divinos? Até ali,
caminhara ela sobre as rosas rubras do desejo, embriagando-se com o vinho  de condenáveis alegrias.
Contudo, seu coração estava sequioso e em desalento. Era jovem e formosa, emancipara-se dos
preconceitos férreos de sua raça; sua beleza lhe escravizara aos caprichos de mulher os mais ardentes
admiradores; mas, seu espírito tinha fome de amor. O profeta nazareno havia plantado em sua alma
novos pensamentos. Depois que lhe ouvira a palavra, observou que as facilidades da vida lhe traziam
agora um tédio mortal ao espírito sensível. As músicas voluptuosas não lhe encontravam eco no íntimo,
os enfeites romanos de sua habitação se tornaram áridos e tristes. Maria chorou longamente, embora não
compreendesse ainda o que pleiteava o profeta desconhecido ; entretanto, seu convite amoroso parecia
ressoar-lhe nas fibras mais sensíveis de mulher. Jesus chamava os homens para uma vida nova.
Decorrida uma noite de grandes meditações e antes do famoso banquete em Naim, onde ela ungiria
publicamente os pés de Jesus com os bálsamos perfumados de seu afeto, notou-se que uma barca
tranqüila conduzia a pecadora a Cafarnaum. Dispusera-se a procurar o Messias, após muitas hesitações.
Como a receberia o Senhor, na residência de Simão? Seus conterrâneos nunca lhe haviam perdoado o
abandono do lar e a vida de aventuras. Para todos, era ela a mulher perdida, que teria de encontrar a
lapidação na praça publica. Sua consciência, porém, lhe pedia que fosse. Jesus tratava a multidão com
especial carinho. Jamais lhe observara qualquer expressão de desprezo para com as numerosas mulheres
de vida equívoca que o cercavam.  Além disso, sentia-se seduzida pela sua generosidade. Se possível, desejaria trabalhar na execução de suas idéias  puras e redentoras. Propunha-se a amar, como Jesus
amava, sentir com os seus sentimentos sublimes. Se necessário, saberia renunciar a tudo. Que lhe valiam
as  jóias,  as  flores  raras,  os  banquetes suntuosos, se, ao fim de tudo isso, conservava a sua sede de
amor?!...
Envolvida por esses pensamentos profundos, Maria de Magdala perpetrou o umbral da humilde
residência de Simão Pedro, onde Jesus parecia esperá-la, tal a bondade com que a recebeu num grande
sorriso. A recém-chegada sentou-se com indefinível emoção a estrangular-lhe o peito.
***
Vencendo, contudo, as suas mais fortes impressões, assim falou, em voz súplice, feitas as primeiras
saudações :
– Senhor, ouvi a vossa palavra consoladora e venho ao vosso encontro!... Tendes a clarividência do
céu e podeis adivinhar como tenho vivido! Sou uma filha do pecado. Todos me condenam. Entretanto,
Mestre, observai como tenho sede do verdadeiro amor!... Minha existência, como todos os prazeres, tem
sido estéril e amargurada...
As primeiras lágrimas lhe borbulharam dos olhos, enquanto Jesus a contemplava, com bondade
infinita. Ela, porém, continuou :
– Ouvi o vosso amoroso convite ao Evangelho! Desejava ser das vossas ovelhas; mas,  será que
Deus me aceitaria?
O Profeta nazareno fitou-a, enternecido, sondando as profundezas de seu pensamento e respondeu
bondoso :
– Maria, levanta os olhos para, o céu e regozija-te no caminho porque escutaste a Boa-Nova do
Reino e Deus te abençoa as alegrias. Acaso poderias pensar que alguém no mundo estivesse condenado
ao pecado eterno. Onde, então, o amor de Nosso Pai? Nunca viste a primavera dar flores sobre uma casa
em ruínas? As ruínas são as criaturas humanas;porém as flores são a esperança em Deus. Sobre tôdas as
falências e desventuras próprias do homem as bênçãos paternais de Deus descem e chamam. Sentes hoje
êsse novo Sol a iluminar-te o destino! Caminha agora, sob a sua luz, porque o amor cobre a multidão dos
pecados.
A pecadora de Magdala escutava o Mestre, bebendo-lhe as palavras. Homem algum havia falado
assim a sua alma incompreendida, os mais levianos lhe pervertiam as boas inclinações, os aparente
mente virtuosos a desprezavam sem piedade. Engolfada em pensamentos confortadores e ouvindo as
referências de Jesus ao amor, Maria acentuou, levemente:
-No entanto, Senhor, tenho amado e tenho sede de amor!...
– Sim – redargüiu Jesus – tua sede é real.
O mundo viciou tôdas as fontes de redenção e é imprescindível compreenda que em suas sendas a
virtude tem de marchar por uma porta muito estreita. Geralmente, um homem deseja ser bom como os
outros, ou honesto como os demais, olvidando que o caminho onde todos passam é de fácil acesso e de
marcha sem edificações. A virtude no mundo foi transformada na porta larga da conveniência própria. Há
os que amam aos que lhe pertencem ao círculo pessoal, os que são sinceros com os seus amigos, os que
defendem seus familiares, os que  adoram  os  deuses  do  favor.  O  que verdadeiramente ama, porém,
conhece a renúncia suprema a todos os bens do mundo e vive feliz, na sua senda de trabalhos para o
difícil acesso às luzes da redenção. O amor sincero não exige satisfações passageiras, que se extinguem
no mundo com a primeira ilusão; trabalha sempre,  sem amargura e sem ambição, com as júbilos do
sacrifício. Só o amor que renuncia sabe caminhar para, a vida suprema!...
Maria o escutava, embevecida. Ansiosa por compreender inteiramente aqueles ensinos novos,
interrogou atenciosamente :
– Só o ardor pelo sacrifício poderá saciar a sede do coração?
Jesus teve um gesto afirmativo e continuou :
Somente o sacrifício contém o divino mistério da vida. Viver bem é saber imolar-se. Acreditas que o
mundo pudesse manter o equilíbrio próprio tão só com os caprichos antagônicos e por vezes criminosos
dos que se elevam à galeria dos triunfadores? Toda luz humana vem do coração experiente e brando dos
que foram sacrificados.
Um guerreiro coberto de louros ergue os seus gritos de vitória sobre os cadáveres que juncam o
chão; mas, apenas os que tombaram fazem bastante silêncio, para que se ouça no mundo a mensagem
de Deus. O primeiro pode fazer a experiência para um dia ; os segundos constroem à estrada definitiva
na eternidade.
Na  tua  condição  de  mulher,  já  pensaste  no  que seria o mundo, sem as mães exterminadas no
silêncio e no sacrifício? Não são elas as cultivadoras do jardim da vida, onde os  homens travam a batalha
¿!... Muitas vezes, o campo enflorescido se cobre de lama e sangue; mas, na sua tarefa silenciosa, os
corações maternais não desesperam e reedificam o jardim da vida, imitando a Providência Divina que
espalha sobre um cemitério os lírios perfumados de seu amor!...
Maria de Magdala, ouvindo aquelas advertências, começou a chorar, a sentir no íntimo o deserto da
mulher sem filhos. Por fim, exclamou :
– Desgraçada de mim, Senhor, que não poderei ser mãe!... Então, atraindo-a, brandamente, a si, o Mestre acrescentou:
– E qual das mães será maior aos olhos de Deus'? A que se devotou somente aos filhos de sua
carne, ou a que se consagrou, pelo espírito, aos filhos das outras mães?
Aquela interrogação pareceu despertá-la para  meditações mais profundas. Maria sentiu-se
amparada por uma energia interior diferente, que até então desconhecera. A palavra do Mestre lhe
honrava o espírito ; convidava-a a ser mãe de seus irmãos em humanidade, aquinhoando-os com os bens
supremos das mais elevadas virtudes da vida. Experimentando radiosa felicidade em seu mundo íntimo;
contemplou o Messias com os olhos nevoados de lágrimas e, no êxtase de sua imensa alegria, murmurou
comovidamente :
– Senhor, doravante renunciarei a todos os prazeres transitórios do mundo, para adquirir o amor
celestial que me ensinastes!... Acolherei como filhas as minhas irmãs no sofrimento, procurarei os
infortunados para aliviar-lhes as feridas do coração, estarei com os aleijados e leprosos...
Nesse instante, Simão Pedro passou pelo aposento, demandando o interior, e a observou com certa
estranheza. A convertida de Magdala lhe sentiu o olhar glacial, quase denotando desprezo, e, já receosa
de um dia perder a convivência do Mestre, perguntou com interesse :
Senhor, quando partirdes deste mundo, como ficaremos?
Jesus compreendeu o motivo e o alcance de sua palavra e esclareceu :
– Certamente que partirei, mas  estaremos eternamente reunidos em espírito. Quanto ao futuro,
com o infinito de suas perspectivas, é necessário que cada um tome sua cruz, em busca da porta estreita
da redenção, colocando acima de tudo a fidelidade a Deus e, em segundo lugar, a perfeita confiança em si
mesmo.
Observando que Maria, ainda opressa pelo olhar estranho de Simão Pedro, se preparava a
regressar, o Mestre lhe sorriu com bondade e disse:
– Vai, Maria!... Sacrifica-te e ama sempre.
Longo é o caminho, difícil à jornada, estreita a porta ; mas, a fé remove os obstáculos... Nada
temas, é preciso crer somente!
***
Mais tarde, depois de sua gloriosa visão do  Cristo ressuscitado, Maria de Magdala voltou de
Jerusalém para a Galiléia, seguindo os passos dos companheiros queridos.
A mensagem da ressurreição espalhara uma alegria infinita.
Após algum tempo, quando os apóstolos e seguidores do Messias  procuravam reviver o passado
junto ao Tiberíades, os discípulos diretos do Senhor abandonaram a região, a serviço da Boa-Nova. Ao
disporem-se os dois últimos companheiros a partir  em definitiva para Jerusalém, Maria de Magdala,
temendo a solidão da saudade, rogou fervorosa-mente lhe permitísseis acompanhá-los à cidade dos
profetas ; ambos, no entanto, se negaram a anuir aos seus desejos. Temiam-lhe o pretérito de pecadora,
não confiavam em seu coração de mulher. Maria compreendeu, mas, lembrou-se do Mestre e resignou-se.
Humilde e sozinha, resistiu a tôdas as propostas condenáveis que a solicitavam para uma nova
queda de sentimentos. Sem recursos para viver,  trabalhou pela própria manutenção, em Magdala e
Dalmanuta. Foi forte nas horas mais ásperas, alegre nos sofrimentos mais escabrosos, fiel a Deus nos
instantes escuros e pungentes. De vez em quando, ia às sinagogas, desejosa de cultivar a lição de Jesus;
mas, as aldeias da Galiléia estavam novamente subjugadas pela intransigência do judaísmo. Ela
compreendeu que palmilhava agora o caminho estreito, onde ia só, com a sua confiança em Jesus. Por
vezes, chorava de saudade, quando passeava no silêncio da praia, recordando a presença do Messias. As
aves do lago, ao crepúsculo, vinham pousar, como outrora, nas alcaparreiras mais próximas, o horizonte
oferecia, como sempre, o seu banquete de luz. Ela contemplava as ondas mansas e lhes confiava suas
meditações.
Certo dia, um grupo de leprosos veio a Dalmanuta ; procediam da Iduméia aqueles infelizes,
cansados e triste em supremo abandono. Perguntavam por Jesus Nazareno, mas tôdas as portas se
lhes fechavam. Maria foi ter com eles e, sentindo-se isolada, com amplo direito de empregar a sua
liberdade, reuniu-os sob as árvores da praia e lhes transmitiu as palavras de  Jesus, enchendo-lhes os
corações das claridades do Evangelho. As autoridades locais, entretanto, ordenaram a expulsão imediata,
dos enfermos. A grande convertida percebeu tamanha alegria no semblante dos infortunados, em face de
suas fraternas revelações, com respeito às promessas do Senhor, que se pôs em marcha para Jerusalém,
na companhia deles. Todo o grupo passou a noite ao relento, mas, sentia-se que os júbilos do Reino de
Deus agora os dominavam. Todos se interessavam pelas descrições de Maria, devoravam-lhe as
exortações, contagiados de sua alegria e de sua fé. Chegados à cidade, foram conduzidos ao vale dos
leprosos, que ficava distante, onde Madalena perpetrou com espontaneidade de coração. Seu espírito
recordava as lições do Messias e uma coragem indefinível se assenhoreara de sua alma.
Dali em diante, tôdas as tardes, a mensageira do Evangelho reunia a turba de seus novos amigos e
lhes dizia o ensinamento de Jesus. Rostos ulcerados enchiam-se de  alegria, olhos sombrias e tristes
tocavam-se de nova luz. Maria lhes explicava que Jesus havia exemplificado o bem até à morte,
ensinando que todos os seus discípulos deviam ter bom ânimo para vencer o mundo. Os agonizantes arrastavam-se até junto dela e lhe beijavam a túnica singela. A filha de Magdala, lembrando o amor do
Mestre, tomava-os em seus braços fraternos e carinhosos.
Em breve tempo, sua epiderme apresentava, igualmente, manchas violáceas e tristes. Ela
compreendeu a sua nova situação e recordou a recomendação do Messias de que  somente sabiam viver os
que sabiam imolar-se. E experimentou grande gozo, por haver levado aos seus companheiros de dor uma
migalha de esperança. Desde a sua chegada, em todo o vale se falava daquele Reino de Deus que a
criatura devia edificar no próprio coração. Os moribundos esperavam a morte com um sorriso ditoso nos
lábios, os que a lepra deformara ou abatera guardavam bom ânimo, nas fibras mais sensíveis.
Sentindo-se ao termo de sua tarefa meritória, Maria de Magdala desejou rever antigas afeições de
seu circulo pessoal, que se encontravam em Éfeso. Lá estavam João e Maria, além de outros
companheiros dos júbilos cristãos. Adivinhava que as suas últimas dores terrestres vinham muito
próximas ; todavia, deliberou pôr em prática o seu humilde desejo.
Nas despedidas, seus companheiros da infortúnio material vinham suplicar-lhe os derradeiros
conselhos e recordações. Envolvendo-os no seu carinho, a emissária do Evangelho lhes dizia apenas :
– Jesus deseja intensamente que nos amemos una aos outros e que participemos de suas divinas
esperanças, na mais extrema lealdade a Deus!...
Dentre aqueles doentes, os que ainda se equilibravam pelos caminhos lhe traziam o fruto das
esmolas escassas, as crianças abandonadas vinham beijar-lhe as mãos.
Na fortaleza de sua  fé, a ex-pecadora abandonou o vale, afastando-se de suas choupanas
misérrimas, através das estradas ásperas. A peregrinação foi-lhe difícil e angustiosa. Para satisfazer aos
seus intentos recorreu à caridade, sofreu penosas humilhações, submeteu-se ao sacrifício. Observando as
feridas pustulentas, que substituíam a sua antiga beleza, alçava-se em reconhecer que seu espírito não
tinha motivos para lamentações. Jesus a esperava e sua alma era fiel.
Realizada a sua aspirarão, por entre dificuldades infinitas, Maria achou-se, um dia, às portas da
cidade ; mas, invencível abatimento lhe dominava os centros de força física. No justo momento de suas
efusões afetuosas, quando. o casario de defeso se lhe desdobrava à vista, seu corpo alquebrado negou-se
a caminhar. Modesta família de cristãos do subúrbio recolheu-a a uma tenda humilde, caridosamente.
Madalena pôde ainda rever amizades bem caras, consoante seus desejos. Entretanto, por largos dias de
padecimentos, debateu-se entre a vida e a morte.
Uma noite, atingiram o auge as profundas dores que sentia. Sua alma estava iluminada por brandas
reminiscências e, não obstante seus olhos se acharem selados pelas pálpebras intumescidas, via com os
olhos da imaginação o lago querido, os companheiros de fé, o Mestre bem-amado. Seu espírito parecia
transpor as fronteiras da eternidade radiosa. De minuto a minuto, ouvia-se-lhe um gemido surdo,
enquanto  os  irmãos  de  crença  lho  rodeavam  o  leito  de  dor,  com  as  preces  sinceras  de  seus  corações
amigos e desvelados.
Em dado instante, observou-se que seu peito não mais arfava. Maria, no entanto, experimentava
consoladora sensação de alívio. Sentia-se sob as árvores de Cafarnaum e esperava o Messias. As aves
cantavam nos ramos próximos e as ondas sussurrantes vinham beijar-lhe os pés. Foi quando viu Jesus
aproximar-se, mais belo do que nunca. Seu olhar tinha o reflexo do céu e no semblante trazia um júbilo
indefinível. O Mestre estendeu-lhe as mãos e ela se prosternou, exclamando, como antigamente :
– Senhor!...
Jesus recolheu-a, brandamente, nos braços e murmurou :
– Maria, já passaste a porta estreita!... Amaste muito! Vem! Eu te espero aqui!

Do livro "A Boa Nova". Psicografado por Chico Xavier.

sábado, 19 de janeiro de 2013

A mulher e a Ressurreição. Psicografia: Chico Xavier. Da obra "A boa nova."


A MULHER E A RESSURREIÇÃO
Irmão X - Humberto de Campos


As águas alegres do Tiberíades se aquietavam, de manso, como tocadas por uma
força invisível da Natureza, quando a barca de Simão, conduzindo o Senhor, atingiu
docemente a praia.
O velho apóstolo, abandonando os remos, deixava transparecer nos traços
fisionômicos as emoções contraditórias de sua alma, enquanto Jesus o observava,
adivinhando-lhe os pensamentos mais recônditos.
– Que tens tu, Simão? – Perguntou o Mestre; com o seu olhar penetrante e amigo.
Surpreendido com a palavra do Senhor, o velho Cefas deu, por um gesto, a perceber
os seus receios e as suas apreensões, como se encontrasse dificuldade em esquecer totalmente
a lei antiga, para penetrar os umbrais da idéia nova, no seu caminho largo de amor, de luz e de
esperança.
– Mestre – respondeu, com timidez – a lei que nos rege manda lapidar a mulher que
perverteu a sua existência.
Conhecendo, por antecipação, o pensamento do pescador e observando os seus
escrúpulos em lhe atirar uma leve advertência, Jesus lhe respondeu com brandura :
– Quase sempre, Simão, não é a mulher que se perverte a si mesma; é o homem
quem lhe destrói a vida.
– Entretanto – tornou o apóstolo, respeitosamente – os nossos legisladores sempre
ordenaram severidade e rispidez para com as decaídas.
Observando os nossos costumes, Senhor, é que temo por vós, acolhendo tantas
meretrizes e mulheres de má vida, nas pregações do Tiberíades...
– Nada temas por mim, Simão, porque eu venho de meu Pai e não devo ter outra
vontade, a não ser a de cumprir os seus desígnios sábios e misericordiosos.
Assim falou o Mestre, cheio de bondade, e, espraiando o olhar compassivo sobre as
águas, levemente encrespadas pelo beijo dos ventos do crepúsculo, continuou, num misto de
energia e doçura :
– Mas, ouve, Pedro! A lei antiga manda apedrejar a mulher que foi pervertida e
desamparada pelos homens ; entretanto, também determina que amemos aos nossos
semelhantes, como a nós mesmos. E o meu destino é o cumprimento da lei, pelo amor mais
sublime sobre a Terra. Poderíamos culpar a fonte, quando um animal lhe polui as águas? De
acordo com a lei, devemos amar a uma e a outro, seja pela expressão de sua ignorância, seja
pela de seus sofrimentos. E o homem é sempre fraco e a mulher sempre sofredora!...
O velho pescador recebia a exortação com um brilho novo nos olhos, como se fora
tocado nas fibras mais íntimas do seu espírito.
– Mestre – retrucou, altamente surpreendido – vossa palavra é a da revelação divina.
Quereis dizer, então, que a mulher é superior ao homem, na sua missão terrestre?
– Uma e outro são iguais perante Deus – esclareceu o Cristo, amorosamente – e as
tarefas de ambos se equilibram no caminho da vida, completando-se perfeitamente, para que
haja, em tôdas as ocasiões, o mais santo respeito mútuo. Precisamos considerar, todavia, que a
mulher recebeu a sagrada missão da vida. Tendo avançado mais do que o seu companheiro na
estrada do sentimento, está, por isso, mais perto de Deus que, muitas vezes, lhe toma o
coração por instrumento de suas mensagens, cheias de sabedoria e de misericórdia. Em tôdas
as realizações humanas, há sempre o fruto da ternura feminina, levantando obras imperecíveis
na edificação dos espíritos. Na história dos homens, ficam somente os nomes dos políticos,
dos filósofos e dos generais ; mas, todos eles são filhos da grande heroína que passa, no
silêncio, desconhecida de todos, muita vez dilacerada nos seus sentimentos mais íntimos ou
exterminada nos sacrifícios mais pungentes. Mas, também Deus, Simão, passa ignorado em
tôdas as realizações do progresso humano e nós sabemos que o ruído é próprio dos homens,
enquanto que o silêncio é de Deus, síntese de toda a verdade e de todo o amor.
Por isso, as mulheres mais desventuradas ainda possuem no coração o gérmen
divino, para a redenção da humanidade inteira. Seu sentimento de ternura e humildade será,
em todos os tempos, o grande roteiro para a iluminação do mundo, porque, sem o tesouro do
sentimento, tôdas as obras da razão humana podem parecer como um castelo de falsos
esplendores.
Simão Pedro ouvia o Mestre, tomado de profundo enlevo e santificado fervor
admirativo.
– Tendes razão, Senhor! – Murmurou, entre humilde e satisfeito.
– Sim, Pedro, temos razão. – Replicou Jesus, com bondade. – E será ainda à mulher
que buscaremos confiar a missão mais sublime na construção evangélica, dentro dos corações,
no supremo esforço de iluminar o mundo.
O apóstolo do Tiberíades ouvira as derradeiras palavras do Divino Mestre, tomado
de surpresa.
Conservou-se, no entanto, em silêncio, ante o sorriso doce do Messias.
Muito distante, o último beijo do Sol punha um reflexo dourado no leque móvel das
águas, que as correntes claras do Jordão enriqueciam. Simão Pedro, fatigado do labor diário,
preparou-se para descansar, com sua alma clareada pelas novas revelações da palavra do
Senhor, as quais, cheias de luz e de esperança divinas, dissipavam as obscuridades da lei de
Moisés.

domingo, 6 de janeiro de 2013

A Linguagem desconhecida.


Um dos maiores prazeres que um homem pode sentir é apertar as bochechas de uma mulher. É delicioso tocar levemente com os dedos e dar uma sutil e leve beliscada. Normalmente ela sorri; um sorriso satisfeito e espontâneo. Se logo depois de apertar as bochechas, colocar a cabeça dela entre as mãos e beijar doce e suavemente a testa, o momento torna-se mágico, ela estremece interiormente. Criou-se uma ligação sutil e invisível entre o homem e a mulher com consequências inesperadas.
Raras vezes os homens compreendem a alma feminina, são por demais egoístas e poucos sensíveis às nuances sutis tão comum às mulheres. Que fazer? Assim é o bípede primata chamado homem, muitas vezes alheio às emoções ternas. Já a mulher é feita com um material melhor, é de natureza mais compreensiva, tolerante e amorosa que seu companheiro masculino. Tem a mulher um belo e natural espírito de sacrifício muitas vezes explorado durante milênios pelos homens, sempre astutos e dominadores.
Esse estado de coisas felizmente está mudando.  Na atual geração, após milênios de evolução social, nota-se uma alteração no comportamento de ambos os sexos. O homem sem efeminar-se, está  cada vez mais sentimental e as mulheres mais racionais. Tal mudança faz pensar que os casais do futuro serão mais felizes que os atuais, pois haverá maior aproximação psicológica entres os sexos sem as atuais dissonâncias emotivas. Emoção! Palavra, ou melhor: conceito difícil de ser apreendido pelos homens, muito mais afeitos à primitividade do instinto.
É por isso que tão importante é a um casal o fator carinho, infelizmente, mal compreendido e até repelido pelos homens. Acariciar, abraçar e beijar uma mulher é roteiro seguro para chegar-se ao coração dela, aconteça o que acontecer.  Há um recanto muito íntimo na alma feminina cujo acesso só é permitido ao homem que conhecer uma linguagem quase sempre desconhecida por ele: a linguagem do amor. Amor! Outra palavra repleta de mistérios, doçura e alegria. Amor e alma feminina têm afinidades profundas, captadas apenas por crianças, grandes artistas ou anjos.
Vale lembrar o último verso da poesia de Victor Hugo “O Homem e a Mulher”:
 “O homem está colocado
onde termina a terra e a mulher
onde começa o céu. ”