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"O homem deve ser amigo da mulher. E no seu amor, deve respeitar sua alma e seu corpo como sagrados que são."
Ghandi.
sábado, 19 de janeiro de 2013
A mulher e a Ressurreição. Psicografia: Chico Xavier. Da obra "A boa nova."
A MULHER E A RESSURREIÇÃO
Irmão X - Humberto de Campos
As águas alegres do Tiberíades se aquietavam, de manso, como tocadas por uma
força invisível da Natureza, quando a barca de Simão, conduzindo o Senhor, atingiu
docemente a praia.
O velho apóstolo, abandonando os remos, deixava transparecer nos traços
fisionômicos as emoções contraditórias de sua alma, enquanto Jesus o observava,
adivinhando-lhe os pensamentos mais recônditos.
– Que tens tu, Simão? – Perguntou o Mestre; com o seu olhar penetrante e amigo.
Surpreendido com a palavra do Senhor, o velho Cefas deu, por um gesto, a perceber
os seus receios e as suas apreensões, como se encontrasse dificuldade em esquecer totalmente
a lei antiga, para penetrar os umbrais da idéia nova, no seu caminho largo de amor, de luz e de
esperança.
– Mestre – respondeu, com timidez – a lei que nos rege manda lapidar a mulher que
perverteu a sua existência.
Conhecendo, por antecipação, o pensamento do pescador e observando os seus
escrúpulos em lhe atirar uma leve advertência, Jesus lhe respondeu com brandura :
– Quase sempre, Simão, não é a mulher que se perverte a si mesma; é o homem
quem lhe destrói a vida.
– Entretanto – tornou o apóstolo, respeitosamente – os nossos legisladores sempre
ordenaram severidade e rispidez para com as decaídas.
Observando os nossos costumes, Senhor, é que temo por vós, acolhendo tantas
meretrizes e mulheres de má vida, nas pregações do Tiberíades...
– Nada temas por mim, Simão, porque eu venho de meu Pai e não devo ter outra
vontade, a não ser a de cumprir os seus desígnios sábios e misericordiosos.
Assim falou o Mestre, cheio de bondade, e, espraiando o olhar compassivo sobre as
águas, levemente encrespadas pelo beijo dos ventos do crepúsculo, continuou, num misto de
energia e doçura :
– Mas, ouve, Pedro! A lei antiga manda apedrejar a mulher que foi pervertida e
desamparada pelos homens ; entretanto, também determina que amemos aos nossos
semelhantes, como a nós mesmos. E o meu destino é o cumprimento da lei, pelo amor mais
sublime sobre a Terra. Poderíamos culpar a fonte, quando um animal lhe polui as águas? De
acordo com a lei, devemos amar a uma e a outro, seja pela expressão de sua ignorância, seja
pela de seus sofrimentos. E o homem é sempre fraco e a mulher sempre sofredora!...
O velho pescador recebia a exortação com um brilho novo nos olhos, como se fora
tocado nas fibras mais íntimas do seu espírito.
– Mestre – retrucou, altamente surpreendido – vossa palavra é a da revelação divina.
Quereis dizer, então, que a mulher é superior ao homem, na sua missão terrestre?
– Uma e outro são iguais perante Deus – esclareceu o Cristo, amorosamente – e as
tarefas de ambos se equilibram no caminho da vida, completando-se perfeitamente, para que
haja, em tôdas as ocasiões, o mais santo respeito mútuo. Precisamos considerar, todavia, que a
mulher recebeu a sagrada missão da vida. Tendo avançado mais do que o seu companheiro na
estrada do sentimento, está, por isso, mais perto de Deus que, muitas vezes, lhe toma o
coração por instrumento de suas mensagens, cheias de sabedoria e de misericórdia. Em tôdas
as realizações humanas, há sempre o fruto da ternura feminina, levantando obras imperecíveis
na edificação dos espíritos. Na história dos homens, ficam somente os nomes dos políticos,
dos filósofos e dos generais ; mas, todos eles são filhos da grande heroína que passa, no
silêncio, desconhecida de todos, muita vez dilacerada nos seus sentimentos mais íntimos ou
exterminada nos sacrifícios mais pungentes. Mas, também Deus, Simão, passa ignorado em
tôdas as realizações do progresso humano e nós sabemos que o ruído é próprio dos homens,
enquanto que o silêncio é de Deus, síntese de toda a verdade e de todo o amor.
Por isso, as mulheres mais desventuradas ainda possuem no coração o gérmen
divino, para a redenção da humanidade inteira. Seu sentimento de ternura e humildade será,
em todos os tempos, o grande roteiro para a iluminação do mundo, porque, sem o tesouro do
sentimento, tôdas as obras da razão humana podem parecer como um castelo de falsos
esplendores.
Simão Pedro ouvia o Mestre, tomado de profundo enlevo e santificado fervor
admirativo.
– Tendes razão, Senhor! – Murmurou, entre humilde e satisfeito.
– Sim, Pedro, temos razão. – Replicou Jesus, com bondade. – E será ainda à mulher
que buscaremos confiar a missão mais sublime na construção evangélica, dentro dos corações,
no supremo esforço de iluminar o mundo.
O apóstolo do Tiberíades ouvira as derradeiras palavras do Divino Mestre, tomado
de surpresa.
Conservou-se, no entanto, em silêncio, ante o sorriso doce do Messias.
Muito distante, o último beijo do Sol punha um reflexo dourado no leque móvel das
águas, que as correntes claras do Jordão enriqueciam. Simão Pedro, fatigado do labor diário,
preparou-se para descansar, com sua alma clareada pelas novas revelações da palavra do
Senhor, as quais, cheias de luz e de esperança divinas, dissipavam as obscuridades da lei de
Moisés.