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"O homem deve ser amigo da mulher. E no seu amor, deve respeitar sua alma e seu corpo como sagrados que são."
Ghandi.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Pecado e punição. Do livro " A boa nova".




Jesus havia terminado uma de suas pregações na praça pública, quando percebeu que
a multidão se movimentava em alvoroço. Alguns populares mais exaltados prorrompiam em
gritos, enquanto uma mulher ofegante, cabelos desgrenhados e faces macilentas, se
aproximava dele, com uma súplica de proteção a lhe sair dos olhos tristes. Os muitos judeus
ali aglomerados excitavam o ânimo geral, reclamando o apedrejamento da pecadora, na
conformidade das antigas tradições.
Solicitado, então, a se constituir juiz dos costumes do povo, o Mestre exclamou com
serenidade e desassombro, causando estupefação aos que o ouviram :
– Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra.
Por toda a assembléia se fez sentir uma surpresa inquietante. As acusações morreram
nos lábios mais exaltados. A multidão ensimesmava-se, para compreender a sua própria
situação. Enquanto isso, o Mestre pôs-se a escrever no solo despreocupadamente.
Aos poucos, o local ficara quase deserto. Apenas Jesus e alguns discípulos lá se
conservavam, tendo ao lado a mulher a ocultar as faces com as mãos.
Em dado instante, o Mestre Divino ergueu a fronte e perguntou à infeliz :
– Mulher, onde estão os teus juízes?
Observando que a pecadora lhe respondia apenas com o olhar reconhecido, onde as
lágrimas aljofravam num misto de agradecimento e alegria, Jesus continuou :
– Ninguém te condenou? Também eu não te condeno. Vai e não peques mais.
A infeliz criatura retirou-se, experimentando uma sensação nova no espírito. A
generosidade do Messias lhe iluminava o coração, em claridades vivas que lhe banhavam a
alma toda. Mas, enquanto a pecadora se retirava, presa de intensa alegria, os poucos
discípulos que se encontravam junto do Senhor não conseguiam ocultar a estranheza que lhes
causara o seu gesto. Por que não condenara ele aquela mulher de vida censurável aos olhos de
todos? Não se tratava de uma adúltera? Nesse ínterim, João se aproximou e interrogou:
– Mestre, por que não condenastes a meretriz de vida infame?
Jesus fixou no discípulo o olhar calmo e bondoso e redargüiu :
– Quais as razões que aduzes em favor dessa condenação? Sabes o motivo por que
essa pobre mulher se prostituiu? Terás sofrido alguma vez a dureza das vicissitudes que ela
atravessou em sua vida? Ignoras o vulto das necessidades e das tentações que a fizeram
sucumbir a meio do caminho. Não sabes quantas vezes tem sido ela objeto do escárnio dos
pais, dos filhos e dos irmãos das mulheres mais felizes. Não seria justo agravar-lhe os
padecimentos infernais da consciência pesarosa e sem rumo.
– Entretanto – exclamou João, defendendo os princípios da lei antiga – ela pecou e
fez jus à punição. Não está escrito que os homens pagarão, ceitil por ceitil, os seus próprios
erros?
O Mestre sorriu sem se perturbar e esclareceu :
– Ninguém pode contestar que ela tenha pecado; quem estará irrepreensível na face
da Terra? Há sacerdotes da lei, magistrados e filósofos, que prostituíram suas almas por mais
baixo preço ; contudo, ainda não lhes vi os acusadores. A hipocrisia costuma, campear
impune, enquanto se atiram pedras ao sofrimento. João, o mundo está cheio de túmulos
caiados. Deus, porém, é o Pai de Bondade Infinita que aguarda os filhos pródigos em sua
casa. Poder-se-ia desejar para a pecadora humilde tormento maior do que aquele a que ela
própria se condenou por tempo indeterminado? Quantas vezes lhe tem faltado pão à boca
faminta ou a manifestação de um carinho sincero à alma angustiada? Raras dores no mundo
serão idênticas às agonias de suas noites silenciosas e tristes. Êsse o seu doloroso inferno, sua,
aflitiva condenação. É que, em todos os planos da vida, o instituto da justiça divina
funciona, natura!mente, com seus princípios de compensação.
“Cada ser traz consigo a fagulha sagrada do Criador e erige, dentro de si, o santuário
de sua presença ou a muralha sombria da negação; mas, só a luz e o bem são eternos e, um.
dia, todos os redutos do mal cairão, para que Deus resplandeça no espírito de seus filhos. Não
é para ensinar outra coisa que está escrito na lei – “Vós sois deuses!”Porventura, não sabes
que a herança de um pai se divide entre os filhos em partes iguais? As criaturas transviadas
são as que não souberam entrar na posse de seu quinhão divino, permutando-o pela satisfação
de seus caprichos no desregramento ou no abuso, na egolatria ou no crime, pagando alto preço
pelas suas decisões voluntárias. Examinada a situação por êsse prisma, temos de reconhecer
no mundo uma vasta escola de regeneração, onde tôdas as criaturas se reabilitam da traição
aos seus próprios deveres. A Terra, portanto, pode ser tida na conta de um grande hospital,
onde o pecado é a doença de todos ; o Evangelho, no entanto, traz ao homem enfermo o
remédio eficaz, para que tôdas as estradas se transformem em suave caminho de redenção.
“É por isso que não condeno o pecador para afastar o pecado e, em tôdas as
situações, prefiro acreditar sempre no bem. Quando observares, João, os seres mais tristes e
miseráveis, arrastando-se numa noite pejada de sombra e desolação lembra-te da semente
grosseira que encerra um gérmen divino e que um dia se elevará do seio da terra para o beijo
de luz do Sol.”
Terminada a explicação do Mestre, o filho de Zebedeu, deixando transparecer na luz
do olhar a sua profunda admiração pôs-se a meditar nos ensinamentos recebidos.
***
Muito tempo ainda não transcorrera depois desse acontecimento, quando Jesus subiu
de Cafarnaum. para Jerusalém, acompanhado por alguns de seus discípulos. Celebravam-se
festas tradicionais entre os judeus. O Messias chegou num sábado, sob a fiscalização severa
dos espíritos rigoristas de sua época. Não foram poucos os paralíticos que o cercaram
ansiosos pelo benefício de sua virtude salvadora. Escandalizando os fanáticos, o Mestre orava
e consolava, na sua jornada de gloriosa redenção. Explicando que o sábado fora feito para o
homem e não o homem para o sábado, enfrentava sorridente as preocupações dos mais
exigentes.
Vendo tantos cegos e aleijados aglomerados à passagem, "Tiago o interpelou:
– Mestre, sendo Deus tão misericordioso, porque pune seus filhos com defeitos e
moléstias tão horríveis?...
– Acreditas, Tiago – respondeu Jesus – que Deus desça de sua sabedoria e de seu
amor para punir seus próprios filhos? O Pai tem o seu plano determinado com respeito à
criação inteira; mas, dentro desse plano, a cada criatura cabe uma parte na edificação, pela
qual terá de responder. Abandonando o trabalho divino, para viver ao sabor dos caprichos
próprios, a alma cria para si a situação correspondente, trabalhando para reintegrar-se no
plano divino, depois de se haver deixado levar pelas sugestões funestas, contrárias à sua
própria paz.
João compreendeu que a Palavra do Messias era a confirmação dos ensinamentos
que já ouvira de seus lábios, na tarde em que a multidão exigia o apedrejamento da pecadora.
Afastaram-se, em seguida, do Tanque de Betsaida cujas águas eram tidas, em
Jerusalém, na conta de miraculosa e onde o Mestre fizera andar paralíticos, dera vista a cegos
e limpara leprosos. Na companhia de Tiago e João, o Senhor encaminhou-se para o templo,
onde um dos paralíticos que ele havia curado relatava o acontecido, cheio de sincera alegria.
Jesus aproximou-se dele e deixando entrever aos seus discípulos que desejava confirmar os
ensinamentos sobre pecado e punição, falou-lhe abertamente, como se lê no texto evangélico
de João : – “Eis que estás são. Não peques mais, para que te vão suceda coisa pior.”
Desde que esses ensinos foram dados, novas idéias de fraternidade povoaram o
mundo, com respeito aos transviados, aos criminosos e aos inimigos, atingindo a própria
organização política dos Estados.
O Império Romano vulgarizara os mais nefandos processos de regeneração ou de
vingança. Escravos ignorantes eram pasto das feras, nos divertimentos públicos, pelas faltas
mais insignificantes nas casas dos patrícios. Só de uma vez, trinta mil desses servos, a quem
se negava qualquer bem do espírito, foram crucificados numa festa, próximo aos soberbos
aquedutos da Via Ápia. Os açoites humilhantes eram castigo suave.
Entretanto, desde a tarde em que Jesus se encontrou com a pecadora em frente da
multidão, um pensamento novo entrou a dominar aos poucos o espírito do mundo. A
substância evangélica do ensino inolvidável penetrou o aparelho judiciário de todos os povos.
A sociedade começou a compreender suas obrigações e procurou segregar o criminoso, como
se isola um doente, buscando auxiliar-lhe a reforma definitiva, por todos os meios ao seu
alcance. Os menores delinqüentes foram amparados pelas numerosas escolas de regeneração.
Todo o sistema da justiça humana evolveu para os princípios da magnanimidade, e os juízes
modernos, lavrando suas sentenças, sem nunca haverem manuseado o Novo-Testamento,
talvez ignorem, que procedem assim por ter sido Jesus o grande reformador da criminologia.
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.